Resolvi começar esta história pelo ápice, pelo momento de ruptura.
Foi um destes momentos em que a gente sente o chão tremendo sobre os nossos pés, e consegue
vislumbrar que vamos lembrar dos acontecimentos para sempre.
O cenário é o Conselho Universitário (Consun), vários dos personagens centrais estavam reunidos geograficamente em um único
recinto. A Reitoria vinha adiando este momento, até que a situação não permitia mais adiamentos.
A decisão havia sido tomada, e o processo de reestruturação sairia da mente de seus criadores
e tomaria contato com a realidade.
O documento a ser apreciado pelo Consun, era um documento obscuro com
duas páginas, e como sempre seguia a estrategia, tão bem descrita por Orwell na palavra
duplipensar, ou seja, justificava um conjunto de ações pela sua antitese. Neste documento
a Reitoria basicamente abandonava a idéia de administrar a Universidade como uma
ditadura constitucional e instituiu o arbitrio como regra geral. Além disso implodiu
com várias níveis hierarquicos de administração concentrando o poder na mão de não
mais do que 8 pessoas. Naquela reunião, cabia ao Consun a patética tarefa de referendar
o inevitável.
O vice reitor, que já comandava a nau Unisinos, tem a difícil tarefa de justificar
o injustificável. O discurso começa : "A Reitoria reunida no Retiro em Bento Gonçalves inspirada
na epistola de Paulo ..." visando aumentar a democracia, modernizar a gestão da Universidade,
estava humildemente propondo (na verdade o jogo já estava decidido) uma nova estrutura etc.
Poupo meus leitores dos maçantes detalhes.
Este discurso carrega algo de novo e de interessante, o fundamentalismo religioso, neste
caso caracterizado pelo uso fora de contexto de uma citação biblica, amalgamado com
o discurso oriundo da nova escola de administração de empresas seriam utilizados para implodir
com uma instituição e com a vida de um sem número de pessoas. Felizmente no Brasil,
a inquisição foi abolida e os maiores danos se situariam no plano financeiro e moral e não
implicaram em violência física.
Como entender os processos que levaram uma instituição relativamente sólida, com
um patrimônio considerável contando com um quadro de professores com ótima formação
e bem remunerados a se mutilar de forma tão bizarra e inconsequente?
Mesmo hoje, longe temporalmente e espacialmente do processo não é possível
para mim formar uma imagem clara do que pode ter ocasionado este colapso.
Algumas explicações óbvias, como por exemplo vantagem pessoal, não se sustentam. Dos
arquitetos da reestruturação restaram algumas poucas almas, em geral funcionários
de segundo ou terceiro escalão e os jesuítas. O bordão da reestruturação era "A Unisinos
é nova por que se renova." Obviamente os autores do bordão, estão entre os poucos
sobreviventes do processo, os demais acabaram por ser ou demitidos, ou serem atolados
de trabalho.
Outra explicação, usando uma imagem muito divulgada na época, foi o iceberg. Ou seja
imaginando a Unisinos como uma versão subtropical do Titanic, a culpa pelo acidente seria
o iceberg. Mas o que seria o iceberg? Para responder esta pergunta preciso de um novo post.
Foi um destes momentos em que a gente sente o chão tremendo sobre os nossos pés, e consegue
vislumbrar que vamos lembrar dos acontecimentos para sempre.
O cenário é o Conselho Universitário (Consun), vários dos personagens centrais estavam reunidos geograficamente em um único
recinto. A Reitoria vinha adiando este momento, até que a situação não permitia mais adiamentos.
A decisão havia sido tomada, e o processo de reestruturação sairia da mente de seus criadores
e tomaria contato com a realidade.
O documento a ser apreciado pelo Consun, era um documento obscuro com
duas páginas, e como sempre seguia a estrategia, tão bem descrita por Orwell na palavra
duplipensar, ou seja, justificava um conjunto de ações pela sua antitese. Neste documento
a Reitoria basicamente abandonava a idéia de administrar a Universidade como uma
ditadura constitucional e instituiu o arbitrio como regra geral. Além disso implodiu
com várias níveis hierarquicos de administração concentrando o poder na mão de não
mais do que 8 pessoas. Naquela reunião, cabia ao Consun a patética tarefa de referendar
o inevitável.
O vice reitor, que já comandava a nau Unisinos, tem a difícil tarefa de justificar
o injustificável. O discurso começa : "A Reitoria reunida no Retiro em Bento Gonçalves inspirada
na epistola de Paulo ..." visando aumentar a democracia, modernizar a gestão da Universidade,
estava humildemente propondo (na verdade o jogo já estava decidido) uma nova estrutura etc.
Poupo meus leitores dos maçantes detalhes.
Este discurso carrega algo de novo e de interessante, o fundamentalismo religioso, neste
caso caracterizado pelo uso fora de contexto de uma citação biblica, amalgamado com
o discurso oriundo da nova escola de administração de empresas seriam utilizados para implodir
com uma instituição e com a vida de um sem número de pessoas. Felizmente no Brasil,
a inquisição foi abolida e os maiores danos se situariam no plano financeiro e moral e não
implicaram em violência física.
Como entender os processos que levaram uma instituição relativamente sólida, com
um patrimônio considerável contando com um quadro de professores com ótima formação
e bem remunerados a se mutilar de forma tão bizarra e inconsequente?
Mesmo hoje, longe temporalmente e espacialmente do processo não é possível
para mim formar uma imagem clara do que pode ter ocasionado este colapso.
Algumas explicações óbvias, como por exemplo vantagem pessoal, não se sustentam. Dos
arquitetos da reestruturação restaram algumas poucas almas, em geral funcionários
de segundo ou terceiro escalão e os jesuítas. O bordão da reestruturação era "A Unisinos
é nova por que se renova." Obviamente os autores do bordão, estão entre os poucos
sobreviventes do processo, os demais acabaram por ser ou demitidos, ou serem atolados
de trabalho.
Outra explicação, usando uma imagem muito divulgada na época, foi o iceberg. Ou seja
imaginando a Unisinos como uma versão subtropical do Titanic, a culpa pelo acidente seria
o iceberg. Mas o que seria o iceberg? Para responder esta pergunta preciso de um novo post.
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